A poesia e o seu dia / Por Mário Ivo Dantas Cavalcanti
Senhores.
O dia amanheceu com as costumeiras nuvens, o mesmo sol de ontem e a ressaca eterna do dia póstumo. Se o bonde não dobrou a esquina na mesma hora usual é porque nem bonde nem motorneiro existem mais. As filas continuaram a formar-se, como diariamente, numa intermitência sem descanso, o pão teimou em sair quentinho dos fornos, os jornais foram distribuídos e vendidos a um real e cinqüenta, um real e vinte cinco, para os poucos que lêem, o médico insuspeito vestiu seu jaleco alvo e atendeu a romaria de malsãos, o sinal continuou fechado enquanto o perpendicular esverdeava. O papa apareceu nos telejornais praguejando contra o segundo casamento. Os pardais desceram dos céus, alheios a benções e aspersões, em sua algazarra habitual. O que importa é a briga pelo maná, seja lá de onde venha. Triste, o mar despejou suas ondas contra a praia.
No entanto, eis que nos chegam as boas novas: em comunhão estreita com as hienas, o poder público chama seus fiéis ao congraçamento da vulgaridade. Reza o calendário oficial, hoje é o dia da poesia. Então, de joelhos, oremos. E agradecemos, de mãos postas, a broa nossa de cada dia quatorze, quando, de ano em ano, o tempo do sol cumprir a termo sei lá que rota espacial, a municipalidade reparte as migalhas com os pombos, enquanto os pardais aguardam, os biquinhos pardos tremelicando. E tome festa e pegue show e brilhe o espetáculo e ressaltem-se os discursos na voz tonitruante dos oficiais de plantão e nos apupos da platéia infernal. Pois é no inferno, já apregoava Sartre, que descansam os outros, bem antes de Santoro embarcar para a ilha de Lost.
E viva! Hoje é dia da moçada comer brioches. Nada de pãozinho francês mal-dormido. Passa a geléia de morangos silvestres, sivuplé. O suco de mangabas silvestres está uma loucura. A poetisa, indecisa entre ser musa ou ativa, já retirou o vestido do cabide, passado a ferro de engomar, já retocou maquiagem e batom.
O apocalíptico já ensaiou seu discurso radical, requentando-o em fogo brando, porque foi contemplado com uns tostões no ano que passou e não fica bem exagerar no inflamável. O homem com uma câmera na mão e mais idéias na cabeça que certos miriápodes têm de pés já engatou seu silêncio blasé, e mesmo sem lágrimas a segredar, sacou do bolso da calça as lentes escuras com que realça sua persona greco-bahiana. O chefão acordou indisposto, ouviu chateado o assessor preparar-lhe o espírito e as palavras escolhidas com pinça edulcorada para serem ditas logo mais, entredentes, entre sorrisos amarelados, entre aquela massa mal-vestida, mal-cheirosa, mal-humana, mas, enfim, com direito a voto digital.
Abram os jornais de hoje, senhores. Os versinhos, decassílabos, poliédricos, modernos, abstratos, estão todos lá. Hoje é dia de espanar os restos mortais de Othoniel Menezes e Ferreira Itajubá. E por que diabos fui falar em Itajubá? Deve ser a praga do castelão endiabrado, o pároco da capela sixteena. Pois não é que nem sepultura o Manuel Virgílio teve? Seus ossos andaram pela casa de Henrique Castriciano assombrando o empregado Ambrósio, vulgo Inselência, que dizia ouvir versos e cantorias.
A informação é de Cascudo, como não poderia ser diferente: para apaziguar o medroso secretário, Castriciano levou os ossos do poeta, que já tinham feito a travessia Rio-Natal naquele distante 1915, para a Igreja do Bom Jesus, onde, tempos depois e por falta de espaço, o padre sepultou-os junto a outros anônimos numa fossa não menos anônima, consagrando, sem saber e querer, o destino eterno da tão festejada poesia potiguar.
Escrito por adriano às 10h09
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