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Pérolas aos poucos / XX / 29 Mulheres que dizem P
Corre por aí, como superstição acadêmica, a existência de uma poesia de gênero, uma poesia feminina. Ou, benza-a Lilith, feminista.
Como toda superstição, essa tem muitos devotos.
Eu, que não entendo as mulheres e não manjo picas de teorréia poética, não sou um deles.
Sou é um leitor genérico, um primata quase bípede (gostamos de ficar na rede, na cama ou na poltrona, praticando o kama-sutra do silêncio) e quase extinto pela neura da especialização.
A preliminar é para esclarecer: esta não é uma antologia de gênero. É antologia de poesia.
Escrito por adriano às 13h16
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Possibilidades
Wislawa Szymborska (Polônia)
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Wara.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingênua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objeções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do inseto ao tempo da estrela.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter sua razão.
Tradução: Aleksandar Jovanovic e Henry Siewierski
Escrito por adriano às 13h13
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Louvação do Barro
Marià Manent (Catalunha)
Cantarei o barro, porque nele esteve a vida
e este sangue que ferve em nosso corpo.
Meus olhos de barro pressentem o repouso
e o clarão imortal de uma outra vida.
Cantarei o barro porque foi amassada
a nossa carne do barro inconsistente
e na argila curtida e inanimada
o sopro de Deus entrou como a semente.
Tradução: João Cabral de Melo Neto
Escrito por adriano às 13h12
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Os Dias de Verão
Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
Escrito por adriano às 13h11
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A Recusa das Imagens Evidentes
Natália Correia (Portugal)
Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.
Há noites que são lírios e que são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.
Escrito por adriano às 13h11
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As Portas
Ruth Fainlight (EUA)
Há o trabalho de dar à luz.
Já o conheci - às vezes
lembro até o esforço de nascer.
Para vir está ainda
o trabalho de deixar a vida. Vi como é difícil
para alguns, enquanto outros,
que estavam presentes num momento
a seguir desapareceram. Passei
a porta da carne. Agora, a espera - quanto ainda? -
para aprender a última tarefa
antes de atravessar a porta da terra.
Tradução: Ana Hatherly
Escrito por adriano às 13h11
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Poesia
Marianne Moore (EUA)
Eu também não gosto dela: há coisas bem mais
importantes que toda esta frioleira.
Lendo-a, porém, com um profundo desprezo por ela, a
gente descobre
nela, de qualquer modo, um lugar para o que é genuíno.
Mãos que podem reter, olhos
que podem se ampliar, cabelos que podem se
eriçar
se for preciso, essas coisas são importantes,
não porque
uma altissonante interpretação lhes possa ser dada mas
porque são úteis. Quando elas começam a
derivar a ponto de se tornarem ininteligíveis,
a mesma acusação pode ser feita a nós outros,
que não admiramos o que
não podemos entender: o morcego
pendente de cabeça para baixo ou à
procura de algo para
comer, elefantes se empurrando, um cavalo selvagem
rolando,
um lobo incansável sob
uma árvore, o crítico imóvel com arrepios na pele como
um cavalo que sente uma pulga, o torcedor de
beisebol, o técnico em estatística...
E nem vale o argumento
para discriminar entre "documentos profissionais e
livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes.
É preciso fazer uma distinção,
porém: quando arrastada à fama por meios-poetas, o
resultado não é poesia,
a menos que os poetas entre nós possam ser
"intérpretes rigorosos da
imaginação" - acima
de insolência e trivialidades que possam apresentar
para inspeção, jardins imaginários contendo rãs
verdadeiras; então nós a teremos encontrado.
Nesse ínterim, se você exige para uma mão
o rude material da poesia em
toda a sua rudeza e
para o que está na outra mão
legitimidade, então você se interessa por poesia.
Tradução: Jorge Wanderley
Escrito por adriano às 13h08
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Autobiografia Sumária
Adília Lopes (Portugal)
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
Escrito por adriano às 12h52
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O Banho de Xampu
Elisabeth Bishop (EUA)
Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.
E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o tempo é,
mais que tudo, contemporizador.
No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.
Tradução: Paulo Henriques Britto
Escrito por adriano às 12h50
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Dimensões
Laura Riding (EUA)
Meçam-me para um funeral
Com minha cova rasa expressando
De um jeito preciso, euclidiano,
Meu ser tridimensional.
Pode ser a vida tão pequena, tão magra?
Meçam-me no tempo. Mas o tempo não avança
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança
Mas só de morte, que é nada de nada.
Meçam-me pela beleza.
Mas beleza é o primeiro nome que a morte
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama
Que tremeluz, um amaranto que se apaga
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte.
Meçam-me não pela beleza, que teme lutar.
Pois a beleza faz trégua com a morte,
Comprando desonra e morte eterna
Na esperança de sobreviver à vida.
Meçam-me então pelo amor – mas não ainda,
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava
Suas próprias medidas em mim,
Mas fugia, com medo que eu pudesse predizer
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda
E de múltiplas medidas, mudando
Minha escala sobre ele e assim provando
Que tanto eu quanto ele éramos nada.
Meçam-me por mim mesma
E não pelo tempo nem amor nem espaço
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça:
Que em minha lápide eu possa
Ser uma régua eu mesma.
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem
E provassem que até eu era nada.
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
Escrito por adriano às 12h49
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fósforo
Cláudia Roquette-Pinto
ela segue dormindo. na borda do lençol o que a acalenta não são flores - senão aquelas mínimas rosas, pontas buliçosas de falanges a afiar seus instrumentos. sobre as cinzas do peito vão as pegadas, fósforo expondo ao ar noturno seu poder de ignição. o objetivo: o ermo pavilhão (esquerdo) do ouvido. onde então dispersariam, indo pesar alhures. nas pálpebras lilases, nas pétalas pisadas dos olhos, onde outro grupo de homúnculos labora. com minúcia, com agulhas de prata eles picam a superfície da pele pálida e baça e tão logo abertas às intempéries da luz. a cada golpe da agulha ela sabe , a massa corrente dos sonhos, a água caiada quase a ponto de talho se enruga e ralenta, e onde ali havia superfície fluida, ininterrupta, o que se coagula?
semi-cerrada na madrugada avulsa ela espera que alguma mão (a sua?) trêmula recolha toda a alva matéria e a explique.
Escrito por adriano às 12h47
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Fala
Orides Fontela
Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave.
Tudo será duro: luz impiedosa excessiva vivência consciência demais do ser.
Tudo será capaz de ferir. Será. agressivamente real. Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade)
Escrito por adriano às 12h46
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Nada, Esta Espuma
Ana Cristina César
Por afrontamento do desejo insisto na maldade de escrever mas não sei se a deusa sobe à superfície ou apenas me castiga com seus uivos. Da amurada deste barco quero tanto os seios da sereia.
Escrito por adriano às 12h45
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Neste mezzo del camin
Neide Archanjo
Neste mezzo del camin carrego comigo obras e cânticos alguns alheios outros próprios coisas que escolhi. Entre vogais e vocábulos componho a biografia construção sonora de rostos reflexos sentimentos tão grande tão grandes uns rindo como gralhas outros mansos todos não perdidos pressentida romã entreaberta assim esta memória existe. Vou como o discípulo de um velho pintor chinês que curvado sob o peso de pincéis potes de laca rolos de seda e de papel arroz sonhava carregar montanhas rios falcões reais e se assim sonhava certamente assim o fazia.
Escrito por adriano às 12h44
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Nocaute
Ledusha
exagerei no decote
sapequei-lhe
um verso de goethe
saí de fininho
David
Olga Savary
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Escrito por adriano às 12h43
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Dez Chamamentos ao Amigo / I
Hilda Hilst
Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo Entendo que sou terra. Há tanto tempo Espero Que o teu corpo de água mais fraterno Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento.
Escrito por adriano às 12h40
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Balada das Dez Bailarinas do Cassino
Cecília Meireles Dez bailarinas deslizam por um chão de espelho. Têm corpos egípcios com placas douradas, pálpebras azuis e dedos vermelhos. Levantam véus brancos, de ingênuos aromas, e dobram amarelos joelhos.
Andam as dez bailarinas sem voz, em redor das mesas. Há mãos sobre facas, dentes sobre flores e com os charutos toldam as luzes acesas. Entre a música e a dança escorre uma sedosa escada de vileza.
As dez bailarinas avançam como gafanhotos perdidos. Avançam, recuam, na sala compacta, empurrando olhares e arranhando o ruído. Tão nuas se sentem que já vão cobertas de imaginários, chorosos vestidos.
A dez bailarinas escondem nos cílios verdes as pupilas. Em seus quadris fosforescentes, passa uma faixa de morte tranqüila. Como quem leva para a terra um filho morto, levam seu próprio corpo, que baila e cintila.
Os homens gordos olham com um tédio enorme as dez bailarinas tão frias. Pobres serpentes sem luxúria, que são crianças, durante o dia. Dez anjos anêmicos, de axilas profundas, embalsamados de melancolia.
Vão perpassando como dez múmias, as bailarinas fatigadas. Ramo de nardos inclinando flores azuis, brancas, verdes, douradas. Dez mães chorariam, se vissem as bailarinas de mãos dadas.
Escrito por adriano às 12h36
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Auge
Sylvia Plath (EUA)
A mulher está perfeita.
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega
Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés
Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.
Cada criança morta, uma serpente branca,
Em volta de cada
Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou
Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim
Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.
A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.
Ela já está costumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.
Tradução:Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça
Escrito por adriano às 12h35
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A Descoberta de Lady Day
Ana Santana (Angola)
I
Aprendi
menina
a lua
aprendi
com as mãos:
é de nácar o refúgio
que a pureza encontra
no umbigo
(Lady Day nasceu
no lado escuro do dia)
Pressenti
moça
o sol
pressenti
com a voz:
são de ônix os sinais
que o mar deixa
nos olhos, don’t explain
(sabes que Lady Day, obsidia,
não exigia menos do que violinos
para impor o seu silêncio
no Onyx?)
Escrito por adriano às 12h34
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II
Conheci
mulher
Juno, Hélios, Pres
conheci
com os seios:
no sentido marginal da melancolia
há onda e guerra, strange fruit
na paixão que nos leva ao fundo
há sabedoria e seu lado oculto
(Lady Day, jade, era um estranho fruto
que exigia de Deus que não se explicasse)
III
Descobri
na paixão
o sagrado da ametista
em cada guerra
o ardor do topázio
na crista da onda
a constância do jaspe
(Lady Day era assim)
Sobre a areia
uma safira:
não lhe toquei
(Lady Day fez sucumbir
todos os lados da noite)
Escrito por adriano às 12h33
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Fragmento / Safo de Lesbos
Cai a lua, caem as Plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui, deitada, desejante.
Tradução: Décio Pignatari
Escrito por adriano às 23h49
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Gritos
Joyce Mansour (Inglaterra)
Me deixa te amar
Amo o gosto do teu sangue espesso
Por longo tempo o conservo em minha boca sem dentes
Seu ardor me incendeia a garganta
Amo o teu suor
Amo acariciar tuas axilas
Banhadas de alegria
Me deixa te amar
Me deixa lamber os teus olhos fechados
Me deixa furá-los com a minha língua pontuda
E lhes encher as órbitas com a minha saliva
Me deixa te cegar
* * *
Queres o meu ventre para te nutrires
Queres meus cabelos para te fartares
Queres meus rins meus seios minha cabeça raspada
Queres que eu morra lentamente lentamente
Que eu mumure morrendo palavras de criança
Tradução: José Paulo Paes
Escrito por adriano às 23h46
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Dante
Anna Akhmátova (Rússia)
Nem morto ele voltou
à sua antiga Florença.
Ao deixá-la, não olhou para trás.
É para ele que canto esta canção.
Uma tocha. Noite. Último abraço.
Seu destino selvagem geme porta afora.
Quando esteve no Inferno, amaldiçoou esta cidade,
mas não esqueceu dela ao chegar ao Paraíso.
Mas não foi ele quem andou, com pés descalços,
vestido de saco e com uma vela acesa,
pelas ruas da Florença bem-amada,
mesquinha e infiel, que ele tanto desejou...
Tradução: Lauro Machado Coelho
Escrito por adriano às 23h38
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Prepúcio
Tamara Kamenszain (Argentina)
O duplo de mim, cristão
a metade do meu duplo, judia
se nascemos perdemos algo
por via dolorosa
e se não nascemos juntos
perdemos tudo.
Perdemos tudo.
Uma escola completa de tradutores
escrevendo molhado sobre seco
à saída do banho turco
carregam a torá pendurada como toalha
presunçosos da cintura para baixo
Avicena sobre a mesa de leitura
dissecar é a palavra correta
reverter da direita para a esquerda
a ordem das letras, "assimilar-se",
traduzir como ladino
a língua materna
de frente para o pátio andaluz
ao fundo a sinagoga abandonada
na circuncisão de um menino.
Você é masoquista?
fugiu de Toledo com a roupa do corpo
entregou os números do antebraço
comeu sua própria entranha
convertido comigo me deixou
e de que me serve a parte do macho
se não puder salvar do extermínio
esse hímen que vela
todas as rupturas.
Tradução: Carlito Azevedo e Paloma Vidal
Escrito por adriano às 23h34
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Formosura que excedeis!
Santa Teresa de Ávila (Espanha)
Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
por ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar mais,
engrandeceis vosso nada.
Tradução: José Bento
Escrito por adriano às 23h27
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"Para meus versos, escritos num repente"
Marina Tsvetáieva (Rússia)
Para meus versos, escritos num repente,
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,
Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
- Versos que ler ninguém pensa! -
Jogados em sebos poeirentos
(Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini
Escrito por adriano às 23h21
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O nome lírico
Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal)
Esta manhã
hoje
é um nome.
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.
Uma palavra
palavra só
a ergue.
Como um nome
amanhece
clareia.
Não do sol
mas de quem
a nomeia.
Escrito por adriano às 23h16
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Encontro numa festa em Londres
Eunice de Souza (Índia)
Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.
Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,
ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.
És jovem e talvez esqueças
de que o Império vive
apenas nos sons puros das vogais que te ofereço
acima do ruído.
Tradução: Cecília Rego Pinheiro
Escrito por adriano às 23h13
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O Poder de Circe
Louise Glück (EUA)
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se dóceis.
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
como poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.
Tradução: José Alberto Oliveira
Escrito por adriano às 23h08
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Testamento
Ewa Lipska (Polônia)
Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.
Tradução: Aleksandar Jovanovic
Escrito por adriano às 23h00
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Hoje tem
Klaus Kinski, em Aguirre, de Werner Herzog (22h, no Telecine Cult)
Escrito por adriano às 10h32
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