BLOG DE ADRIANO


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Escrito por Adriano às 04h40
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AS 7 MARAVILHAS DO RN

Imprensa

Maravilha de marketing. É capaz de tudo (exceto de jornalismo) para vender (cada vez menos) jornais.

Rio Potengi

Maravilha de química. O retrato cagado e cuspido, em sua podrêra, da nossa alienação política.

Câmara de Vereadores de Natal 

Maravilha de metonímia. É a parte que revela o todo.

Folha de pagamento da Assembléia Legislativa

Maravilha de blindagem. Nem o Ministério Público consegue acesso à trepidante lista de vips & pebas, colunistas & fantasmas, parentes & aderentes que infestam a casa do povo (deles).

Partido Progressista

Maravilha de aluguel. Se quatro grupos políticos de peso (e dólar e euro e ouro e real et coetera) disputam-lhe a propriedade, tem algum encanto que todos os outros pobres-homens desconhecemos.

Candidatos a prefeito de Natal

Maravilha de aritmética. A soma de todas as parcelas resulta em rotundo zero de idéias ou projetos para a cidade. Zero à esquerda, zero à direita.

América Futebol Clube

Maravilha das maravilhas. Deixa todo visitante muito feliz.

 



Escrito por Adriano às 09h39
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O blog vai ficar sem atualização, por tempo indeterminado.

Escrito por adriano às 12h09
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A falta que ela me faz

Quem?

Ela.

Ela, quem?

Uma palavra.

Qual?

Não sei.

Não sabe?

Não lembro.

Não lembra ou não sabe?

Não lembro, não sei.

Então, não pode sentir falta.

Eu sinto.

De algo que você não lembra nem sabe?

Eu não lembro, mas sei que existe.

Só isso?

É muito.

Uma palavra?

É.

É isso que se perdeu?

Não.

O que, então?

O que a palavra dizia e o que ela suscitava.

Suscitava?

Sim.

Você usa uma palavra como essa e não consegue lembrar aquela que julga mais importante?

É.

O que ela suscitava?

Não sei.

Nem lembra?

Não.

Ela não suscita mais?

Não.

Por quê?

Não sei. Mas lembro que a gente sentia quando as coisas estavam assim.

Assim?

É.

Como?

Eu precisaria daquela palavra para dizer.

 



Escrito por adriano às 10h50
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8 RAZÕES PARA GOSTAR DE FUTEBOL

 

Porque a bola é redonda.

Porque o jogo só acaba quando o juiz apita.

Porque do pescoço pra baixo é tudo canela.

Porque eu vi Alberi jogar.

Porque gol é gozo.

Porque tínhamos um Motoradio de 6 faixas que pegava a Rádio Globo Rio.

Porque a palavra ludopédio é linda.

Porque a palavra balípodo, também.



Escrito por adriano às 01h52
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Menas, pessoal; menas

Do DN On Line, com todas as tintas do jornalismo que aqui se passa por cultural:

"O Rio Grande do Norte é pródigo em cineastas brilhantes que foram afastados do reconhecimento nacional pelos descaminhos do destino."



Escrito por adriano às 11h21
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É meeeeeu! Tudo meeeeeeeeeeeeu!

Começou a fritura do novo condestável do socialismo cucurbitáceo, o consultor Getúlio Apolinário.

O óleo fervente escorre do noticiário e, com temperatura ainda mais alta, de algumas das principais bancadas do colunismo político, cada qual afinada com os interesses (internos e externos ao Governo) do seu cada-qual.

O ponto de convergência desses interesses (antagônicos nos embates intestinos do socialismo) é a preservação do território comunal de caça, o que depende, é óbvio, da manutenção irrestrita da atual nomenklatura.



Escrito por adriano às 10h50
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Banquete dos mendignos

E como este blog também é cultura, vamos falar de poesia, que, aqui, tem até dia, hora, local e bedel pra dizer quem pode e quem não pode comer com os cães. É a única efeméride nacional que é meramente local. Culpa do calendário, decerto. Certo é que Mário Ivo Dantas Cavalcanti sabe o que faz quando trata a xutos e pontapés o tal dia, a tal poesia, os tais poetas e mais aqueles filhos-da-puta que, se não for um deles, você sabe muito bem quais são. Aproveite a canja. É hoje só.

Escrito por adriano às 10h18
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A poesia e o seu dia / Por Mário Ivo Dantas Cavalcanti

Senhores.

O dia amanheceu com as costumeiras nuvens, o mesmo sol de ontem e a ressaca eterna do dia póstumo. Se o bonde não dobrou a esquina na mesma hora usual é porque nem bonde nem motorneiro existem mais. As filas continuaram a formar-se, como diariamente, numa intermitência sem descanso, o pão teimou em sair quentinho dos fornos, os jornais foram distribuídos e vendidos a um real e cinqüenta, um real e vinte cinco, para os poucos que lêem, o médico insuspeito vestiu seu jaleco alvo e atendeu a romaria de malsãos, o sinal continuou fechado enquanto o perpendicular esverdeava. O papa apareceu nos telejornais praguejando contra o segundo casamento. Os pardais desceram dos céus, alheios a benções e aspersões, em sua algazarra habitual. O que importa é a briga pelo maná, seja lá de onde venha. Triste, o mar despejou suas ondas contra a praia.

No entanto, eis que nos chegam as boas novas: em comunhão estreita com as hienas, o poder público chama seus fiéis ao congraçamento da vulgaridade. Reza o calendário oficial, hoje é o dia da poesia. Então, de joelhos, oremos. E agradecemos, de mãos postas, a broa nossa de cada dia quatorze, quando, de ano em ano, o tempo do sol cumprir a termo sei lá que rota espacial, a municipalidade reparte as migalhas com os pombos, enquanto os pardais aguardam, os biquinhos pardos tremelicando. E tome festa e pegue show e brilhe o espetáculo e ressaltem-se os discursos na voz tonitruante dos oficiais de plantão e nos apupos da platéia infernal. Pois é no inferno, já apregoava Sartre, que descansam os outros, bem antes de Santoro embarcar para a ilha de Lost.

E viva! Hoje é dia da moçada comer brioches. Nada de pãozinho francês mal-dormido. Passa a geléia de morangos silvestres, sivuplé. O suco de mangabas silvestres está uma loucura. A poetisa, indecisa entre ser musa ou ativa, já retirou o vestido do cabide, passado a ferro de engomar, já retocou maquiagem e batom.

O apocalíptico já ensaiou seu discurso radical, requentando-o em fogo brando, porque foi contemplado com uns tostões no ano que passou e não fica bem exagerar no inflamável. O homem com uma câmera na mão e mais idéias na cabeça que certos miriápodes têm de pés já engatou seu silêncio blasé, e mesmo sem lágrimas a segredar, sacou do bolso da calça as lentes escuras com que realça sua persona greco-bahiana. O chefão acordou indisposto, ouviu chateado o assessor preparar-lhe o espírito e as palavras escolhidas com pinça edulcorada para serem ditas logo mais, entredentes, entre sorrisos amarelados, entre aquela massa mal-vestida, mal-cheirosa, mal-humana, mas, enfim, com direito a voto digital.

Abram os jornais de hoje, senhores. Os versinhos, decassílabos, poliédricos, modernos, abstratos, estão todos lá. Hoje é dia de espanar os restos mortais de Othoniel Menezes e Ferreira Itajubá. E por que diabos fui falar em Itajubá? Deve ser a praga do castelão endiabrado, o pároco da capela sixteena. Pois não é que nem sepultura o Manuel Virgílio teve? Seus ossos andaram pela casa de Henrique Castriciano assombrando o empregado Ambrósio, vulgo Inselência, que dizia ouvir versos e cantorias.

A informação é de Cascudo, como não poderia ser diferente: para apaziguar o medroso secretário, Castriciano levou os ossos do poeta, que já tinham feito a travessia Rio-Natal naquele distante 1915, para a Igreja do Bom Jesus, onde, tempos depois e por falta de espaço, o padre sepultou-os junto a outros anônimos numa fossa não menos anônima, consagrando, sem saber e querer, o destino eterno da tão festejada poesia potiguar.



Escrito por adriano às 10h09
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Lá em nós

“Tô aqui tirando um poeta renitente”, diz o velho sapateiro, enquanto cavouca, com a ponta do trinchete, o bicho-de-pé.

Escrito por adriano às 09h52
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Pérolas aos poucos / XX / 29 Mulheres que dizem P

Corre por aí, como superstição acadêmica, a existência de uma poesia de gênero, uma poesia feminina. Ou, benza-a Lilith, feminista.

Como toda superstição, essa tem muitos devotos.

Eu, que não entendo as mulheres e não manjo picas de teorréia poética, não sou um deles.

Sou é um leitor genérico, um primata quase bípede (gostamos de ficar na rede, na cama ou na poltrona, praticando o kama-sutra do silêncio) e quase extinto pela neura da especialização.

A preliminar é para esclarecer: esta não é uma antologia de gênero. É antologia de poesia. 

 



Escrito por adriano às 13h16
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Possibilidades

   Wislawa Szymborska (Polônia)

Prefiro cinema.

Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos nas margens do Wara.

Prefiro Dickens a Dostoievski.

Prefiro-me gostando dos homens

em vez de estar amando a humanidade.

Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não afirmar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não os escrever.

Prefiro no amor os aniversários não redondos

para serem comemorados cada dia.

Prefiro os moralistas,

que não prometem nada.

Prefiro a bondade esperta à bondade ingênua demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.

Prefiro ter objeções.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães com o rabo não cortado.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que aqui não disse,

a outras tantas não mencionadas aqui.

Prefiro os zeros à solta

a tê-los numa fila junto ao algarismo.

Prefiro o tempo do inseto ao tempo da estrela.

Prefiro isolar.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro levar em consideração até a possibilidade

do ser ter sua razão.

                     Tradução: Aleksandar Jovanovic e Henry Siewierski



Escrito por adriano às 13h13
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Louvação do Barro

   Marià Manent (Catalunha)

Cantarei o barro, porque nele esteve a vida

e este sangue que ferve em nosso corpo.

Meus olhos de barro pressentem o repouso

e o clarão imortal de uma outra vida.

 

Cantarei o barro porque foi amassada

a nossa carne do barro inconsistente

e na argila curtida e inanimada

o sopro de Deus entrou como a semente.

                 Tradução: João Cabral de Melo Neto



Escrito por adriano às 13h12
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Os Dias de Verão

    Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)

Os dias de verão vastos como um reino

Cintilantes de areia e maré lisa

Os quartos apuram seu fresco de penumbra

Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

 

Tempo é de repouso e festa

O instante é completo como um fruto

Irmão do universo é nosso corpo

 

O destino torna-se próximo e legível

Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros

Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

 

Como se em tudo aflorasse eternidade

 

Justa é a forma do nosso corpo



Escrito por adriano às 13h11
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A Recusa das Imagens Evidentes

   Natália Correia (Portugal)

Há noites que são feitas dos meus braços

E um silêncio comum às violetas.

E há sete luas que são sete traços

De sete noites que nunca foram feitas.

 

Há noites que levamos à cintura

Como um cinto de grandes borboletas.

E um risco a sangue na nossa carne escura

Duma espada à bainha dum cometa.

 

Há noites que nos deixam para trás

Enrolados no nosso desencanto

E cisnes brancos que só são iguais

À mais longínqua onda do seu canto.

 

Há noites que nos levam para onde

O fantasma de nós fica mais perto;

E é sempre a nossa voz que nos responde

E só o nosso nome estava certo.

 

Há noites que são lírios e que são feras

E a nossa exactidão de rosa vil

Reconcilia no frio das esferas

Os astros que se olham de perfil.  



Escrito por adriano às 13h11
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